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Amar É Dar o que Não Se Tem

  • Foto do escritor: Josiel Pereira
    Josiel Pereira
  • 8 de ago.
  • 2 min de leitura

Atualizado: 9 de ago.


A Visão Psicanalítica do Amor


O amor mais verdadeiro não nasce da completude, mas da coragem de se oferecer, mesmo incompleto.

Existe uma frase lacaniana que resume, de forma provocadora, uma das ideias mais importantes da psicanálise sobre o amor: amar é dar o que não se tem. À primeira vista, ela parece um contrassenso — como alguém pode dar aquilo que não possui? Mas é justamente nesse paradoxo que se encontra uma compreensão essencial sobre o que realmente significa amar outra pessoa.


Estamos acostumados a pensar o amor como uma espécie de transbordamento: amamos porque temos algo em abundância — segurança, felicidade, plenitude — e escolhemos compartilhar esse excedente com alguém. Mas a psicanálise propõe outra leitura: amar verdadeiramente envolve reconhecer e assumir, diante do outro, justamente aquilo que nos falta — nossas fragilidades, nossas incompletudes, nossas próprias faltas constitutivas —, e ainda assim se oferecer, sem esperar que o outro venha para preencher essa falta por completo.


Isso é bem diferente da fantasia romântica tão comum, segundo a qual o amor verdadeiro seria aquele em que encontramos alguém capaz de nos completar, de suprir tudo o que nos falta, de nos tornar finalmente inteiros. Essa fantasia, embora sedutora e onipresente nas canções, filmes e histórias que consumimos desde a infância, tende a gerar relações marcadas por expectativas impossíveis — porque nenhuma pessoa, por mais amorosa e presente que seja, pode de fato preencher a falta estrutural que constitui todo sujeito humano.


Erich Fromm, em sua obra sobre a arte de amar, caminhava numa direção semelhante ao afirmar que o amor maduro não é uma fusão que anula as individualidades, nem uma busca desesperada por segurança através do outro, mas um ato ativo de doação — que exige capacidade de dar sem se perder, de se abrir sem se anular, e de reconhecer o parceiro como um ser separado, com seus próprios desejos, limites e faltas, e não como uma extensão de nós mesmos destinada a nos salvar de nossa própria incompletude.


Compreender essa dimensão do amor não torna as relações menos intensas ou menos significativas — pelo contrário, tende a torná-las mais honestas e mais duradouras, porque livra o vínculo do peso insustentável de precisar resolver, sozinho, tudo o que falta em cada um dos parceiros. Amar, nesse sentido mais maduro, é caminhar ao lado de alguém reconhecendo, com humildade, que ambos são seres incompletos — e que é justamente dessa incompletude compartilhada, e não da fantasia de completude perfeita, que pode nascer um vínculo verdadeiramente vivo.

7 comentários


melbarbosa914
11 de ago.

Linda reflexão que nos leva a pensar que amar não é encontrar alguém que complete aquilo que nos falta, mas escolher compartilhar a vida mesmo reconhecendo nossas próprias incompletudes. O amor não exige que o outro nos salve, mas sim que dois seres imperfeitos caminhem juntos.

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leoelaypereira
10 de ago.

Muito esclarecedor, este texto!! Nos levar a refletirmos se realmente estamos amando, esperando algo do outro!🙏🏼👏🏼👏🏼

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Jamille Onofre
10 de ago.

O amor não consiste em palavras propriamente dita e sim em ações diária de respeito e posicionamentos, é compreender que a incompletude se completa na imperfeições compartilhada e completadas por parte de ambos no desejo diário de ser uma melhor versão de si mesmo .

No livro devocional Amigas de Jesus tem um capítulo muito relevante

" Como posso dar o que eu nunca recebi" trás clareza de que é possível oferecermos muito mais que já nós foi dado .

Editado
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Vanessa Vanessa
Vanessa Vanessa
10 de ago.

Que lindo! Amar deixa de ser a busca por uma tampa para a panela e passa a ser a coragem de transformar a própria vulnerabilidade compartilhada em ponte para o encontro legítimo com o outro.

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Carolaine Araújo
Carolaine Araújo
10 de ago.

O amor verdadeiro também é graça: reconhecer nossas imperfeições e, ainda assim, escolher amar, cuidar, perdoar e crescer juntos. Porque o amor é uma decisão diária. 🤍

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